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A "Fábrica" no início do séc.XX Breve nota histórica da Companhia Aveirenses de Moagens
Manuel Ferreira Rodrigues
Tal como noutros sectores de actividade, também na moagem a difusão do vapor foi lenta e tardia. Os velhos moinhos e as azenhas resistiram à moagem industrial até há poucas décadas. Segundo A. Jorge Dias, na década de 1950, «havia ainda cerca de 30.000 moinhos de água e de vento registados, enquanto hoje [em 1964] não há 10.000 em actividade, dos quais 3000 devem ser a vento. É de supor que, dos 7000 hidráulicos restantes, cerca de 5000 sejam de rodízio. Em 1960 havia cerca de 3000 moinhos de vento em laboração, dos quais só 1000 chegaram a 1964.» Em Aveiro, a primeira moagem a vapor nasce em finais de 1874. Foi instalada num edifício antigo, conhecido até ao início do século XX por Casa dos Moi-nhos, mas que nos é mais familiar pelo nome de Capitania, por ali ter funcionado a Capitania do Porto de Aveiro, entre 1926 e 1995. O velho casarão, que na sua origem fora um moinho de maré, terá moído trigo e milho a vapor durante dez anos. Entre os cinco elementos da sociedade então constituída, com um capital social de 6.000$000 réis, conta-vam-se Sebastião de Carvalho Lima, um dos mais importantes políticos aveiren-ses do século XIX, pai de Sebastião e Jaime Magalhães Lima, e Manuel Simões Amaro, referido, em 1868, como «construtor de moinhos de maré». No final de Oitocentos, nasce outra moagem a vapor em Aveiro. Em 1896, ano em que é fundada a fábrica de telha de Jerónimo Pereira Campos, Manuel Homem de Carvalho Cristo, mestre-de-obras e proprietário da padaria da Rua dos Tavares, instala uma moagem a vapor num edifício da Rua da Alfândega. A novel fábrica de moagem de cereais e «acidentalmente de descasque de arroz e de serração de madeira», com alvará passado em 1897, empregava, em 1900, 15 trabalhadores. Mas a vida desta empresa, nos primeiros anos de vida, não foi fácil. Em 1903, o seu passivo cifrava-se em 19.100$000 réis, quando o valor do edifício da fábrica, de dois armazéns e de um quintal no Bairro dos Santos Mártires, bem como o de toda a maquinaria e utensílios perfa-zia 3.820$000 réis. Perante esta situação, Manuel Homem de Carvalho Cristo socorre-se de alguns comerciantes ami-gos, como Manuel da Rocha e Albino Pinto de Miranda, e de pessoas da sua família, como o seu mais conhecido irmão, Francisco M. Homem Cristo. Assim, em 11 de Maio de 1903, forma uma sociedade, em nome colectivo, com o mesmo objecto social, sob a firma Cristo, Rocha, Miranda & Companhia. Manuel Cristo entrou com os bens referi-dos e os restantes cinco sócios com quotas iguais, no valor de 3.820$000 réis. Se, ao fim de três anos, os prejuízos persistissem – lê-se na escritura –, proceder-se-ia à dissolução e liquidação da sociedade. Manuel Homem de Carvalho Cristo detém à época um currículo cívico e profissional notável. Na sequência da demo-lição da igreja do Espírito Santo, às Cinco Bicas, este mestre-de-obras foi responsável pela edificação da torre da Sé, que foi concluída em 1859. Em 1882, é um dos fundadores da primeira companhia de bombeiros voluntários de Aveiro, e ocupa desde então um papel de relevo na redacção do periódico republicano Povo de Aveiro, fundado pelo irmão, nesse mesmo ano. Posteriormente, integrou a comissão para a erecção da estátua de José Estêvão, inaugurada em 1889. Nos anos seguintes envolver-se-ia na direcção da Sociedade Recreio Artístico (1897, 1900-1906 e 1919) e da Associação Comercial de Aveiro (1898-1901). O comerciante Manuel da Rocha era um amigo de longa data de Jerónimo Pereira Campos. Foi director da Associação de Socorros Mútuos, em 1866. Em 1888 é um dos fundadores da Fábrica Nacional de Vidros de Aveiro (1888-1891). Foi vereador de 1890 a 1893 e de 1902 a 1904. É então decidida a construção de novas instalações, num espaço mais desafoga-do, nos Santos Mártires. Uma equipa de técnicos estrangeiros instala a máquina a vapor e demais equipamentos, no iní-cio de 1904. A imprensa dá conta do curso dos trabalhos, con¬siderando «audaciosa e perigosa» a iniciativa, «atendendo à crise que presentemente atraves¬sam as fábricas de moagem»; considerava, no entanto, que a fábrica era «um dos estabele¬cimentos mais aperfeiçoados no seu género que ulti-mamente se têm posto a funcionar.» Em Junho desse mesmo ano, prestes a iniciar a produção, a empresa anuncia a «moagem de milho e trigo, à qual se adi-cionará o fabrico de massas alimentícias, descasque de arroz e serração de madeiras.» Nos anos seguintes, a situação não melhorou muito. Em 1909-1910, o passivo volta a superar o activo. Dois sócios cedem as suas quotas, e os que ficam aumentam o capital para 36 contos de réis. Durante a I Guerra Mundial, período de grandes carências, apesar do papel regulador da moagem contra a carestia do pão, a situação da empresa regista uma expressiva melhoria. Como consequência, o capital social passa sucessivamente de 45 para 80 contos e é reforçada a sua capacidade produtiva com a introdução do sistema austro-húngaro de moagem de trigo, milho e descasque de arroz. Em 1922, a imprensa regionalista aveirense anuncia com optimismo: «Aveiro tem fábricas de conservas, de ladrilho, de lixa, nada menos de quatro de louça e duas de moagem de cereais, empresas de pesca, duas das quais em S. Jacinto, duas fábricas de pirolitos e quatro de preparo de sardinha, tanoarias, torrefac-ção de café, isto sem falar nas companhias de pesca e navegação e em tantos outros estabelecimentos dignos de serem mencionados.» O aparecimento da electricidade, antes da crise da segunda metade dos Anos Vinte, também alimentou sonhos desenvolvimentistas. Em 1920 – um ano após o nascimento de uma outra moagem a vapor em Aveiro –, e no âmbito da acção da militância regionalista, os melhores comerciantes e industriais da cidade fundam o Banco Regional de Aveiro. Nesse mesmo ano, esta casa bancária adquire a moagem de Cristo, Rocha, Miranda & Companhia, por 850 contos, «a fim de dar maior incremento aos seus negócios e introduzir o fabrico de bolachas e de massas alimentícias». Em 28 de Outubro de 1920 é constituída uma sociedade anónima de responsabilidade social, denominada «Companhia Aveirense de Moagens». Entre os onze sócios da nova firma contam-se três da sociedade anterior, mas o seu «administrador», Manuel Homem de Carvalho Cristo, cede então o lugar aos três «administradores-delegados» que compõem o Conselho de Administração: o influente comerciante Albino Pinto de Miranda, que já antes integrava a direcção da empresa, o «carpinteiro» Henrique dos Santos Rato e o «proprietário» Manuel Barreiros de Macedo. Albino Pinto de Miranda, um dos fundadores do Banco Regional de Aveiro, contribuíra, em 1903, para a sobrevivência da moagem e estava agora na linha da frente no salto qualitativo dos Anos Vinte. Este comerciante, oriundo de Oliveira do Bairro, fixou-se em Aveiro em 1894. Esteve ligado a diversos sectores, da moagem à cerâmica, dos impostos municipais, aos negócios dos fósforos e do tabaco, assumindo papel de relevo na Associação Comercial de Aveiro e nos clubes da cidade, durante perto de qua-tro décadas. Inicia-se assim uma nova e próspera fase da vida da empresa, que se torna, desde então, uma das mais importantes moagens do país. Em 1925, ainda surge uma outra moagem, mas a Companhia Aveirense de Moagens havia reunido condições e meios para fazer face aos efeitos da concorrência das unidades que nasceram um pouco por todo o país neste período, mormente na região da Ria de Aveiro. Manuel Ferreira Rodrigues | |